
Já aconteceu com você de aconselhar alguém com palavras que, no fundo, pareciam ser exatamente o que você mesmo precisava ouvir? Talvez tenha estendido a mão, confortado, motivado, abraçado, sorrindo por fora enquanto dentro de você algo gritava por socorro. Pois é. Às vezes, somos nós que mais precisamos daquilo que oferecemos aos outros.
Vivemos correndo, ajudando, cuidando de todo mundo. Tentamos ser fortes para quem amamos, estar presentes, ouvir, resolver. E acabamos esquecendo de nós. Mas chega um momento em que o corpo sente. O coração pesa. A alma cansa. E vem aquela pergunta silenciosa: “Quem cuida de mim?”
É curioso como a gente se doa. Como entrega palavras bonitas, conselhos sábios, abraços apertados, escuta paciente. Fazemos tudo isso com amor, sem medir. Mas por dentro, muitas vezes, estamos quebrados. Ninguém vê. Ninguém imagina. Porque aprendemos a esconder. A disfarçar. A sorrir mesmo quando tudo em nós pede silêncio.
Quantas vezes você disse “vai passar” para alguém, torcendo para que passe também dentro de você? Quantas vezes acolheu a dor do outro enquanto a sua própria seguia sem cuidado? Não é fraqueza, não é drama. É só cansaço. É só o coração dizendo que também precisa ser olhado.
A verdade é que quem muito oferece, muitas vezes tem sede. Quem muito acolhe, precisa de colo. Quem sempre escuta, precisa falar. Mas vai adiando, vai se escondendo atrás da força que todo mundo enxerga. E aí, o mundo vai achando que você aguenta tudo. Que você nunca desaba. Que dá conta de qualquer coisa. Mas não dá. Ninguém dá.
Talvez você nunca tenha parado pra pensar nisso. Talvez ache que está tudo bem em sempre ser o apoio, o alicerce, o ombro amigo. Mas não está. Você também é humano. Também sente medo, dúvida, solidão. Também precisa de afeto, de escuta, de presença. E não tem problema nenhum nisso. Aliás, reconhecer isso é um ato de coragem.
A gente passa tanto tempo tentando ser o que o outro precisa, que se esquece de ser o que a gente mesmo precisa. E, aos poucos, vai se afastando de si. Vai se tornando estranho pra si mesmo. Até que vem o vazio. A tristeza silenciosa. A vontade de sumir. E ninguém entende.
Por isso, pare um pouco. Se escute. Olhe pra dentro. Pergunte-se: o que eu tenho dado que me falta? O que eu ofereço que, na verdade, é o que mais estou precisando? E, se a resposta vier carregada de emoção, de dor, de silêncio, abrace isso. Não fuja. Não disfarce. Se dê o que você vive dando. Cuide-se com o mesmo carinho que cuida dos outros.
Você merece. Você precisa. Você tem direito.
Esse texto não é sobre fraqueza. É sobre humanidade. É sobre entender que por trás de cada gesto de bondade, muitas vezes existe uma dor calada. É sobre enxergar que os mais fortes também choram. Que os mais sorridentes também se quebram por dentro. E que os mais presentes, muitas vezes, se sentem ausentes de si.
Então, da próxima vez que você oferecer amor, compreensão, paciência, tente perceber se você também tem se dado isso. Porque ninguém consegue se manter inteiro por muito tempo quando está sempre repartido. Ninguém floresce em solo seco. Ninguém cuida bem dos outros enquanto se abandona.
Que você encontre dentro de si a coragem de se priorizar. De se acolher. De se escutar. E, principalmente, de se oferecer aquilo que sempre ofereceu ao mundo: amor, atenção, compaixão e cuidado.
Porque às vezes, sim, você é a pessoa que mais precisa daquilo que oferece aos outros. E tudo bem. Você não está sozinho.