
Tem gente que não ama. Gosta de ser amado. E isso faz uma diferença imensa quando a gente finalmente entende. Eu demorei muito tempo para perceber, e talvez você que está lendo agora esteja vivendo esse mesmo ponto cego. Porque às vezes, a gente confunde atenção com afeto, presença com amor, e reciprocidade com esperança.
A verdade é que você não gostava de mim. E não, isso não é amargura. É constatação. Você gostava de ser gostado. Você gostava do jeito como eu te esperava, da minha insistência boba em te manter por perto. Gostava da minha disponibilidade em qualquer hora, da minha capacidade quase automática de te perdoar mesmo depois de tantas ausências, tantas falas duras, tantos silêncios estratégicos.
Você não gostava de mim. Gostava da facilidade que era me ter sempre ali, com o coração escancarado, com a alma em oferta. Gostava do poder de saber que, mesmo depois de um sumiço ou de um descaso, eu ainda estaria lá, com a mesma intensidade de antes. Como se meu sentimento fosse um estoque eterno que nunca acabasse.
Você usava meu amor como alívio para suas carências. Quando o mundo te pesava, você vinha até mim. Meus ouvidos viravam abrigo para os seus desabafos, minha calma virava o remédio para os seus dias turbulentos. E eu, achando que isso era amor, dava tudo. Dava até o que eu não tinha mais.
Mas não era amor. Era conveniência. Era ego. Era o gosto de saber que podia me ter na palma da sua mão. Era a segurança de saber que, magoando ou não, eu não iria embora. Você gostava do meu perdão, da minha ausência de rancor, da minha insistência em acreditar que um dia você veria tudo o que eu sentia e talvez me escolhesse de verdade.
Mas você nunca escolheu. E quando parecia que ia escolher, era só mais uma ilusão. Era só você alimentando a reserva emocional que fazia de mim. Um plano B emocional, uma companhia de emergência, uma presença que só era lembrada quando o resto do mundo te esquecia.
E dói admitir isso. Dói porque o amor que eu te dava era sincero, era inteiro. Eu realmente acreditava que, com o tempo, você veria em mim o que eu via em você. Mas você não via. Você via só o que podia tirar de mim. Você não queria me ter. Queria apenas alguém que te quisesse.
Hoje, olhando com mais calma, entendo que você nunca me amou. Você amou o efeito que meu amor causava em você. Amou a certeza, o conforto, o acolhimento. Mas nunca amou quem eu era, nunca se interessou por minha essência, pelas minhas dores, pelas minhas lutas. Nunca perguntou se eu estava bem, porque pra você, bastava saber que eu estava ali.
É cruel isso, eu sei. Mas é libertador também. Porque quando a gente entende que não foi falta de amor, mas excesso dele em direção errada, a gente para de se culpar. Para de achar que não foi suficiente, que poderia ter feito mais, dito mais, esperado mais. Não. O problema nunca foi o que eu dei. Foi o que você nunca teve coragem de dar de volta.
Você gostava da ideia de ter alguém te amando. Mas não queria se entregar de verdade. Não queria se despir emocionalmente, se comprometer, se envolver. Queria o afeto, mas não queria o compromisso que vem com ele. Queria presença, mas não queria responsabilidade. Queria ser prioridade, mas não queria priorizar. Queria ser lembrado, mas esquecia com facilidade.
E agora, escrevendo isso, percebo que o que eu sentia era amor, sim. Mas era um amor solitário, carregado nas minhas costas, sustentado só por mim. Um amor que não encontrava eco. Que não florescia, só cansava. Um amor bonito, mas mal acompanhado.
Então, se você também está lendo isso e lembrando de alguém, eu te peço: não se culpe por ter amado demais. Amar não é o problema. O problema é quando a gente se acostuma a dar tudo a quem só quer pegar e nunca devolver. Quando a gente se prende a quem gosta da gente, mas não nos ama.
Hoje, eu sigo. Com marcas, sim, mas mais leve. Porque entendi que mereço ser amado do jeito que amei. E se não for assim, não serve. Não me serve mais ser plano B de ninguém, nem abrigo temporário de quem só aparece quando chove.
Amor de verdade é presença com profundidade. É cuidado que vem antes da necessidade. É reciprocidade, não só conveniência. E é isso que hoje eu busco. E que, lá no fundo, todo coração cansado merece.
Por André Luiz Santiago Eleutério