
Um dia, talvez tarde demais, você vai entender. Vai compreender que o meu desejo pela sua mudança nunca foi imposição, nem controle, nem ego. Foi amor. Foi um amor tão verdadeiro, tão entregue, que não se conformava em te ver parado no mesmo lugar, repetindo os mesmos erros, andando em círculos e chamando isso de vida. Eu não queria que você fosse outro. Eu queria que você fosse mais de você. O melhor de você. Aquele que eu vi quando ninguém mais enxergava. E que, mesmo você não acreditando, ainda mora aí dentro, escondido atrás das desculpas que você repete pra não precisar mudar.
Eu esperei que você crescesse comigo. Que quisesse ficar. Que me escolhesse, com maturidade, com presença, com responsabilidade. Esperei que um dia você enxergasse que amor não é só sentir, é cuidar, é zelar, é agir. Que não basta estar, tem que permanecer. Que não é sobre prometer, é sobre cumprir. Mas você continuou deixando tudo pra depois. E enquanto você adiava, eu me perdia. Me perdia nas tentativas de consertar o que só funcionaria se fosse feito a dois. Me perdia tentando traduzir em palavras o que o meu coração gritava em silêncio. Me perdia tentando te mostrar que eu não queria te moldar, só queria que você se visse com os olhos com que eu te via.
E eu me calei tantas vezes. Engoli tantas palavras pra não te magoar. Disfarcei tantas dores pra não te afastar. Porque, mesmo cansada, eu ainda acreditava que valia a pena. E talvez tenha sido esse o meu maior erro: acreditar demais. Lutar demais. Sentir demais sozinha. Enquanto eu sonhava com um “nós”, você se bastava no seu “eu”. E isso me feria num lugar que nem eu sabia que existia. Um lugar fundo, onde o amor virava ferida, onde a esperança virava cansaço, onde a espera virava ausência.
Você achou que eu cobrava demais. Mas a verdade é que eu só queria que você estivesse comigo por inteiro. Que escolhesse ficar, não porque era cômodo, mas porque era certo. Porque havia amor, e onde há amor de verdade, há esforço. Há movimento. Há entrega. Eu fui ficando sozinha dentro da relação. Tentando acender luzes que você apagava. Tentando reconstruir pontes que você quebrava com cada silêncio, com cada descaso, com cada promessa feita sem intenção de cumprir.
E chegou um dia em que até o amor cansou. Cansou de ser empurrado com a barriga. Cansou de esperar por mudanças que nunca vinham. Cansou de ser sempre o primeiro a tentar. Porque o amor, mesmo sendo imenso, precisa de reciprocidade pra continuar crescendo. E quando ela não vem, ele murcha. Silenciosamente. E a gente nem percebe quando para de esperar. Só sente um vazio. E entende, no susto, que já não dói mais como antes. Que já não acende mais aquela chama. Que algo em nós apagou, e a gente nem sabe exatamente quando foi.
Talvez você só perceba tudo isso quando eu já tiver ido. Quando não houver mais ligações não atendidas, mensagens não respondidas, jantares que eu preparei mesmo sabendo que você não viria. Talvez seja tarde quando você olhar pro lado e perceber que aquele lugar que um dia foi seu agora está vazio. E não porque alguém tomou, mas porque você abriu mão. Aos poucos, como quem não se importa. Como quem não entende que amor exige presença.
Você vai perceber. Vai sentir falta das minhas falas repetidas, dos meus conselhos, dos meus alertas que pareciam broncas mas eram pedidos de cuidado. Vai lembrar do jeito como eu olhava pra você quando ninguém mais te via. E talvez então entenda: que o meu querer não era cobrança, era insistência por amor. Eu só queria ser prioridade no mesmo lugar onde você ocupava o centro do meu mundo.
Mas agora não dá mais pra esperar. Não dá mais pra insistir sozinha num amor que deixou de ser abrigo pra se tornar peso. Porque eu aprendi que amor não é sacrifício diário de si mesmo. E eu me sacrifiquei demais. Esqueci de mim tentando lembrar você de quem você era. Tentei segurar o mundo nos braços enquanto você soltava a minha mão.
E quando a gente entende que o amor não nos salva quando é solitário, a gente escolhe partir. Escolhe respirar de novo. Escolhe se levantar, mesmo com o coração em pedaços, e seguir. Não porque deixou de amar, mas porque entendeu que amor nenhum vale o preço de se perder.
Então, se um dia você acordar com saudade, com a alma apertada, com um silêncio doendo no peito… lembra que eu estive aqui. Que lutei por nós até não caber mais em mim. Que te esperei com os olhos cheios de esperança e os braços abertos. Mas você não veio. E o tempo ensinou que quem não vem, também decide partir. Mesmo sem dizer. Mesmo sem bater a porta.
Esse texto é só um desabafo. Uma despedida sem grito. Um adeus sem raiva. Porque mesmo ferida, eu te desejo crescimento.
Te desejo lucidez. Te desejo tudo aquilo que eu tentei construir com você. Porque, no fundo, eu só queria que você tivesse crescido ao meu lado. Que tivesse escolhido ficar. Mas agora, escolho eu. Escolho ir. Escolho me escolher.
Se um dia você entender tudo isso, guarda com carinho. Porque foi amor. Ainda é. Mas agora é amor por mim.