Reflexões que a saudade me ensinou sobre o tempo, a presença e o silêncio – por André Luiz Santiago Eleuterio

Foto de André Luiz Santiago Eleutério, autor do Pensamento Diário com reflexões emocionais sobre a vida
André Luiz Santiago Eleutério

Saudade não tem nada a ver com calendário. Com data, com distância medida em quilômetros, com quantos meses ou anos se passaram desde o último abraço. Eu achava que sim. Por muito tempo, achei que saudade era um intervalo. Um vão. Uma espera. Mas hoje eu entendo: saudade não tem a ver com o tempo em que você está longe de alguém, e sim com o espaço que essa pessoa ocupa dentro de você.

É estranho como tem gente que você pode ficar anos sem ver e está tudo bem. A vida segue, os dias passam, as memórias esfriam. Não é que não foi importante, foi. Mas aquilo já teve o tempo certo pra acontecer. E foi só isso. E tem gente que sai por uma porta e, antes mesmo de a porta fechar, você já sente falta. É como se o ar mudasse. Como se o silêncio ganhasse outro peso. E não importa quanto tempo passe, a ausência dela continua presente, como se o corpo soubesse que tem algo fora do lugar. Como se a alma avisasse: “tá faltando alguém aqui”.

Eu aprendi que saudade não é sobre ir ou ficar. É sobre vínculo. É sobre conexão. Sobre aquele tipo de presença que continua existindo mesmo na ausência. Quando a gente sente falta de alguém de verdade, não é só da pessoa. É do que ela fazia a gente sentir. É das conversas, dos sorrisos, dos olhares. É da leveza que ela trazia nos momentos difíceis. Ou da paz que ela oferecia só por estar sentada ali, do lado, sem dizer nada. Às vezes é no silêncio que a gente mais percebe a falta que o outro faz.

Tem dias em que a saudade vem como uma lembrança boa. Ela chega de mansinho, com um cheiro, uma música, uma foto antiga. E dá vontade de sorrir. De fechar os olhos e reviver. Em outros dias, ela vem pesada. Vem como um nó na garganta, uma lágrima teimosa, uma vontade que não tem onde se apoiar. Nessas horas, parece que o peito vira um lugar apertado demais pra tanta coisa que ficou por dizer.

Mas o mais bonito — e talvez o mais cruel — é que a saudade só existe porque houve amor. Ninguém sente saudade do que não teve. Ninguém sente falta do que não foi real. E isso me faz perceber o quanto eu fui privilegiado. Porque se hoje eu carrego essa dor, é porque, antes, eu tive o privilégio de viver algo verdadeiro. De dividir a vida com alguém que fez parte da minha história de um jeito que nem o tempo, nem a distância, conseguem apagar.

A gente tenta seguir em frente. E segue. Não porque esquece, mas porque aprende a andar junto com a saudade. Aprende a dar espaço pra ela. A respeitar os dias em que ela fala mais alto. E a agradecer pelos dias em que ela se transforma em lembrança bonita. Porque a saudade também tem disso: ela ensina. Ensina que cada instante é único. Que cada pessoa que passa pela nossa vida deixa uma marca. E que amar alguém é aceitar que, em algum momento, a ausência vai chegar. Mas que isso não anula o que foi vivido. Ao contrário. Isso torna tudo ainda mais precioso.

Tem uma parte da saudade que é bonita. Ela nos ensina a valorizar. A olhar para os pequenos detalhes. A lembrar de coisas simples que, na correria do dia a dia, a gente nem percebia. A gargalhada no meio da tarde, o jeito de segurar uma xícara, a música que tocava no carro, o bilhete deixado na geladeira. Coisas pequenas que, depois, viram gigantes. Porque são essas coisas que ficam. E são elas que fazem a saudade ser doída e doce ao mesmo tempo.

Eu escrevo tudo isso não pra encontrar uma resposta, mas pra me escutar. Pra transformar a falta em palavra, o silêncio em frase, a dor em algo que possa ser tocado. Porque a gente precisa dar nome às coisas que sente. Precisa transformar o invisível em algo que possa ser compreendido. E, se possível, dividido. Porque às vezes a dor fica mais leve quando encontra eco em outro coração.

Se você sente saudade de alguém, permita-se sentir. Não tenha pressa em apagar. Não se culpe por lembrar. A saudade não é sinal de fraqueza, é sinal de humanidade. De amor que existiu. De presença que foi forte. De laço que não se desfaz com o tempo. Às vezes, ela é só o jeito que o coração encontrou de dizer “você é importante pra mim”. E, às vezes, isso é tudo que a gente precisa ouvir.

No fim, eu aprendi que a saudade não passa. Mas a gente aprende a andar com ela. Aprende a fazer dela companhia, e não só ausência. Aprende a sorrir mesmo com o peito apertado. E entende que, se alguém deixou um espaço tão grande dentro de nós, é porque foi amor. E amor, de verdade, nunca vai embora. Ele só muda de forma. Às vezes vira lágrima, às vezes vira abraço lembrado. Mas sempre, sempre, continua sendo amor.

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