Quando o silêncio machuca mais que a fala – André Luiz Santiago Eleuterio

Foto de André Luiz Santiago Eleutério, autor do Pensamento Diário com reflexões emocionais sobre a vida
André Luiz Santiago Eleutério

Falar nem sempre resolve. Mas o silêncio também pode machucar mais do que qualquer palavra. Quando duas pessoas tentam se comunicar sem maturidade mútua, não há encontro verdadeiro. O que deveria ser uma troca vira defesa. O que era para ser escuta se transforma em julgamento. Cada palavra vira um escudo. Cada pausa, uma ameaça. E o que era pra ser diálogo vira guerra fria.

É triste quando conversar se torna perigoso. Quando não se sabe se pode falar, como falar, se vai ser ouvido. O medo toma conta. A tensão se instala. A conversa deixa de ser espaço de encontro e se transforma num campo minado. Um passo em falso e tudo explode. E aí se fala menos. Se cala mais. Não por paz, mas por medo. Não por maturidade, mas por exaustão.

Falta escuta. Falta entrega. Falta respeito. Esses três pilares sustentam qualquer diálogo saudável. Quando um deles está ausente, a conversa desmorona. Ninguém ouve de verdade quando está ocupado preparando a resposta. Ninguém entende o outro quando só enxerga o próprio ponto de vista. Ninguém constrói nada quando cada fala vira disputa.

Escutar de verdade exige coragem. Coragem de ficar em silêncio sem pressa. Coragem de não interromper. Coragem de acolher o que não se entende. Porque nem tudo é lógico. Nem tudo é claro. Muitas vezes, a dor do outro não tem explicação, só precisa de espaço. Mas quem não sabe escutar, transforma cada desabafo numa cobrança. Cada lágrima numa acusação.

Sem respeito, não há confiança. E sem confiança, não há conversa possível. Falar com alguém que não respeita seus sentimentos é como gritar num quarto vazio. Você se expõe, se desgasta, se machuca… e nada volta. Só o eco da própria dor. E com o tempo, você vai se fechando. Vai se protegendo. Vai evitando qualquer tentativa de aproximação, porque já sabe onde ela vai parar: no mesmo lugar de sempre, onde ninguém realmente te ouve.

E quando o silêncio vira uma arma, tudo piora. Porque ele deixa de ser um descanso e vira punição. A ausência de resposta vira castigo. O silêncio passa a carregar peso, tensão, medo. E a pessoa que só queria conversar começa a se sentir culpada por tentar. Começa a se questionar demais. A se diminuir. A se calar. Não por escolha, mas por sobrevivência.

Isso não é diálogo. Isso é resistência emocional. Um tentando sobreviver ao outro. Um tentando não desmoronar diante da falta de conexão. Porque o que machuca mesmo não é o que se fala — é a ausência de cuidado no jeito de ouvir. É a dureza no olhar. É a pressa em cortar. É a frieza no silêncio.

Conversar deveria ser o contrário disso. Deveria ser um lugar seguro. Um espaço onde se pode respirar, se abrir, se mostrar sem medo. Onde há entrega dos dois lados. Onde a escuta é leve, mesmo diante da dor. Onde o respeito nunca sai da mesa. Mas isso só acontece quando existe maturidade. E maturidade não se finge. Ou se tem, ou se constrói. Mas nunca se improvisa.

Quando não há maturidade, tudo vira ataque. Até um pedido de carinho. Até uma tentativa de reconciliação. A pessoa escuta com filtro sujo. Interpreta tudo como crítica. Se defende antes mesmo de entender. Rebate antes de acolher. E aí ninguém se encontra. Só se afastam. Cada vez mais.

E o que poderia ser cura, vira ferida. O que poderia ser ponte, vira abismo. E a pessoa que só queria ser ouvida começa a se sentir errada por sentir. Começa a se calar para manter a paz. Mas paz sem voz é prisão. E ninguém aguenta viver assim por muito tempo.

É preciso coragem para conversar de verdade. E ainda mais coragem para reconhecer que nem todo mundo está pronto para isso. Às vezes, o melhor que se pode fazer é parar de insistir. Parar de falar onde não há escuta. Parar de tentar onde só existe muro. Porque em certos momentos, o silêncio mais saudável é aquele que vem depois da tentativa honesta de ser ouvido — e não aquele que é imposto como arma.

Conversar cura. Mas só quando há dois corações abertos. Dois ouvidos atentos. Duas vontades sinceras. Sem isso, não é conversa. É luta. Não é encontro. É sobrevivência. E sobreviver não é viver.

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