
Há dores que não vêm de longe. Elas não chegam pela crítica de um estranho, nem pelo julgamento de quem não nos conhece. As dores mais difíceis quase sempre nascem perto demais. Vêm de quem senta à mesa, de quem conhece nossa história, de quem sabe exatamente onde tocar para desestabilizar.
É isso que confunde. Porque nos ensinaram que proximidade justifica tudo. Que parentesco exige silêncio. Que amizade pede tolerância infinita. E, aos poucos, fomos aprendendo a engolir o desconforto, a relevar o desrespeito, a normalizar a falta de empatia. Como se amar alguém significasse aceitar qualquer coisa.
Mas não significa.
Existe uma linha invisível que, quando ultrapassada, começa a nos adoecer. É quando você percebe que sempre sai menor das conversas. Que suas dores são diminuídas. Que seus limites são ignorados. Que você se explica demais e, mesmo assim, nunca é compreendido. Não porque você fala mal, mas porque o outro não quer ouvir.
Muitas vezes, ficamos presos ao passado. Ao que aquela pessoa já fez de bom. À versão antiga dela. À memória que pesa mais do que o presente. Só que o corpo não vive de lembrança. Ele reage ao agora. E se o agora machuca, algo precisa ser revisto.
Não se trata de descartar pessoas. Pessoas não são objetos. Mas também não são intocáveis. Priorizar o próprio bem estar não é egoísmo. É sobrevivência emocional. É entender que vínculo sem respeito vira prisão. Que amor sem cuidado vira cobrança. Que convivência sem empatia vira desgaste.
Quem realmente se importa tenta entender. Mesmo quando discorda. Mesmo quando precisa corrigir. Há muitas formas de dizer a mesma coisa. E quando alguém escolhe sempre a mais dura, a mais fria, a mais agressiva, isso diz mais sobre ela do que sobre você.
Fomos ensinados a agradar. A não incomodar. A suportar. E esquecemos de aprender algo essencial: ninguém deve tudo a ninguém, exceto a si mesmo. Você não precisa permanecer onde precisa se diminuir para caber. Não precisa aceitar o desrespeito só porque vem embalado de afeto antigo.
Às vezes, o ato mais difícil é reconhecer que o amor próprio pede distância. Não por ódio. Não por vingança. Mas por lucidez. Porque continuar insistindo em laços que machucam não é prova de força. É atraso de cura.
Cuidar de si não afasta quem é verdadeiro. Apenas revela quem nunca foi.