
Deixa eu te perguntar uma coisa, com honestidade: quantas vezes você permitiu que alguém tivesse acesso ao seu melhor e, mesmo assim, foi tratado como sobra?
Talvez mais do que gostaria de admitir. E talvez tenha sido exatamente aí que a lição começou a se formar, ainda que em silêncio. Porque a vida, em algum momento, nos ensina algo duro, mas necessário: nem todo mundo merece permanecer perto. Nem todo mundo sabe cuidar do que toca.
Há um instante específico em que a gente entende que precisa virar muralha. Não por frieza, não por orgulho, mas por autopreservação. É quando se tornar inacessível deixa de ser defesa e passa a ser consciência. Quando o limite não é mais um pedido, mas uma decisão.
Virar muralha não significa fechar o coração para o mundo. Significa aprender a escolher quem entra. Significa proteger aquilo que ainda pulsa inteiro dentro de nós. Quem já teve acesso ao nosso melhor e tratou como resto não perdeu apenas a nossa presença. Perdeu o privilégio de estar.
E isso precisa ser dito com clareza: presença não é obrigação. É escolha. É oferta. É algo que se constrói no cuidado diário, no respeito, na reciprocidade. Quem não soube valorizar, que aprenda a lidar com a ausência. A ausência também educa. Também ensina. Também revela.
O julgamento superficial costuma chamar isso de frieza. Mas quem vive de dentro sabe que não é. É maturidade emocional. É entender que continuar se doando para quem não reconhece é uma forma silenciosa de se abandonar. E abandonar a si mesmo nunca foi sinal de empatia.
Empatia, aliás, não é aceitar tudo. Não é permitir invasões constantes. Não é justificar desrespeitos em nome de vínculos que já adoeceram. Empatia verdadeira começa quando a gente se respeita o suficiente para não se diminuir por ninguém.
Existe uma dor invisível em perceber que nem todos caminham com a mesma consciência. Que alguns só entendem o valor quando perdem o acesso. Mas essa dor também amadurece. Ela ensina a escolher melhor, a falar menos, a observar mais.
Se hoje você parece distante, seletivo ou silencioso, talvez não seja afastamento. Talvez seja crescimento. Talvez seja apenas você aprendendo a cuidar do que é seu.
Porque no fim das contas, quem entende isso não endurece. Se fortalece. E segue, mais inteiro, mais consciente, sabendo que estar presente é privilégio nunca obrigação.