Quando a água acaba para mim

Por André Luiz Santiago Eleutério

Existem momentos em que a vida expõe o que há de mais cruel no equilíbrio das relações. Você está sempre lá, disponível, oferecendo sua força, sua presença, sua generosidade. Cada gesto, cada ajuda, é como encher o poço de quem precisa. Mas, um dia, ao olhar para dentro de si, você percebe que o seu próprio poço está seco.

A sensação de vazio é difícil de explicar. Não é a ausência de coisas, mas a falta de reciprocidade. É perceber que, enquanto você se doava, ninguém se preocupou em retribuir, em reabastecer aquilo que te sustentava. Quando chega sua vez, a água some, e o silêncio pesa.

É nesse momento que o coração aprende uma dura verdade: não se pode doar tudo sem guardar um pouco para si. Porque há quem só venha quando é fácil, quando o esforço é dos outros. E, quando a dificuldade chega, quando o poço seca, essas pessoas desaparecem.

Essa realidade não é fácil de aceitar. É amarga e dolorosa. Mas é também um chamado para a transformação. Guardar sua própria água não é egoísmo; é sobrevivência. Não é sobre esperar menos dos outros, mas sobre proteger o pouco que ainda resta de você.

E, no fundo, é sobre reconhecer quem realmente importa. Aqueles que, ao perceberem que sua água acabou, aparecem com um balde, prontos para dividir o que têm. É sobre valorizar as conexões genuínas, as que não se perdem quando o poço seca.

Porque, mesmo quando a água falta, existe algo que ninguém pode tirar de você: a força para cavar um novo poço.

Local: Itaim Bibi, São Paulo – SP, Brasil

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