
Imagina que você foi picado por uma cobra. A dor é intensa, mas ao invés de correr para se tratar, você sai correndo atrás da cobra. Quer entender por que ela fez aquilo. Quer olhar nos olhos dela e perguntar: “Por quê eu?” Você tenta convencê-la de que você não merecia aquilo, que sempre foi bom, leal, gentil. E enquanto isso, o veneno age dentro de você. Ele percorre seu corpo, silencioso, implacável. Mata você devagar, enquanto você desperdiça suas últimas forças tentando encontrar sentido onde não há.
Mas… isso não é sobre cobras.
É sobre mágoas. Sobre traições. Sobre a dor que a gente carrega quando não consegue simplesmente aceitar que algumas pessoas nos ferem — e ponto. É sobre as noites mal dormidas, tentando entender por que alguém que amávamos tanto virou as costas. É sobre o esforço inútil de provar nosso valor para quem já decidiu nos diminuir. É sobre o peso que colocamos em nossos próprios ombros, acreditando que, se nos explicarmos melhor, se mostrarmos mais carinho, mais fidelidade, quem sabe a pessoa volta atrás. Quem sabe ela enxerga.
Enquanto isso, o veneno está agindo.
A verdade é que muitos de nós passamos boa parte da vida tentando fazer as pessoas entenderem que fomos bons para elas. Ficamos presos ao desejo de justiça emocional, como se a lógica da bondade garantisse retorno. Como se amar alguém de verdade fosse o suficiente para impedir que ela nos ferisse. Mas não é.
A cobra não pica porque você mereceu. Ela pica porque é da natureza dela. E continuar correndo atrás dela, em vez de cuidar do seu próprio ferimento, é o que vai te matar.
E aqui, mais uma vez, não estamos falando de cobras.
Estamos falando de pessoas que nos ferem e vão embora. De relacionamentos que nos deixam em pedaços. De amizades que viram pó, sem explicação. De laços de sangue que se transformam em abismos. Estamos falando daquela dor que você sente no peito toda vez que se lembra do que fizeram com você — e do tempo que você ainda investe pensando nisso, alimentando o veneno.
Porque, no fundo, a pergunta que deveríamos fazer não é “por que fizeram isso comigo?”, mas sim “por que eu continuo permitindo que essa dor me acompanhe?”
Você não precisa entender por que alguém te traiu. Você não precisa descobrir por que alguém te rejeitou, te ignorou, te abandonou. Você precisa, sim, se tratar. Cuidar da ferida. Limpar o veneno. Viver. Você precisa se libertar do ciclo de dor que insiste em te prender ao passado.
Perdoar não é dizer que não doeu. É dizer: eu escolho não deixar essa dor me dominar.
Talvez você tenha passado anos correndo atrás de explicações. Talvez tenha implorado por respostas que nunca vieram. E, quem sabe, ainda hoje se pegue olhando para trás, tentando entender como tudo desandou. Mas a verdade é que, enquanto você continua lá atrás, tentando conversar com a cobra, o melhor da vida está passando aqui, agora. Sem você.
Este texto é um convite. Um grito silencioso. Uma tentativa de te despertar.
Olhe para dentro. Veja o que ainda está te matando aos poucos. Que ferida você não tratou? Que veneno você decidiu carregar como se fosse parte de você? Que cobra você insiste em seguir?
Pare. Respire. Volte para si.
Você não está aqui para mendigar amor, explicações ou arrependimentos. Você está aqui para viver. E viver exige que, às vezes, a gente aprenda a virar as costas para o que nos feriu — mesmo que sem respostas.
Porque a sua cura vale mais do que qualquer justificativa.