
O que me impede de ser eu mesmo?
O Código Penal, as Sagradas Escrituras, os Direitos Humanos e, claro, a minha conta bancária.
Só isso.
Coisas simples, nada que uma boa dose de bom senso e medo da prisão não resolvam.
Porque, se dependesse apenas da vontade, eu já teria falado umas verdades que fariam cair meia dúzia de amizades, desmontado umas ilusões alheias e talvez até processado uns sentimentos atrasados.
Mas aí vem a realidade e me lembra que sinceridade demais dá processo, deslike e, às vezes, boletim de ocorrência.
Ser você mesmo é bonito no discurso.
Na prática, é o caminho mais rápido pra ser cancelado, mal interpretado ou demitido.
Todo mundo ama autenticidade até ela aparecer de verdade.
Depois disso, o que sobra é o silêncio constrangido e a clássica frase:
“Você podia ter sido mais sutil.”
Mas vamos combinar: a vida já é um teatro. A gente aprende a interpretar desde cedo.
Aprende a sorrir quando quer sumir, a concordar pra evitar briga, a fingir maturidade quando o que quer mesmo é chutar o balde e sair andando.
Ser autêntico virou quase um ato de rebeldia.
E dos caros porque custa caro demais não seguir o script.
Se eu fosse totalmente eu, talvez perdesse mais do que ganhasse.
Perderia amigos que só gostam da versão educada, perderia oportunidades que exigem paciência, perderia aplausos que só vêm quando a gente finge estar de acordo.
Mas ganharia algo raro: paz.
Aquela paz de quem não precisa mais decorar o personagem que criou pra caber nas expectativas dos outros.
Só que o mundo não lida bem com gente livre.
Querem autenticidade, mas dentro do limite social.
Querem opinião, desde que seja igual à deles.
Querem verdade, mas sem incômodo.
E é por isso que a conta bancária entra na lista.
Porque, sinceramente, se ela fosse maior, talvez eu já tivesse me aposentado de agradar.
A pobreza é o maior freio de autenticidade que existe.
Ninguém pode ser 100% verdadeiro quando precisa pagar boletos.
Liberdade de expressão é linda até o aluguel vencer.
Então, o que me impede de ser eu mesmo?
Tudo isso: leis, crenças, moral, economia e, principalmente, o medo de perder o pouco equilíbrio que me resta.
Mas, de vez em quando, escapa.
Sai um comentário atravessado, uma risada fora de hora, uma sinceridade sem filtro.
E aí eu lembro que o “eu mesmo” ainda vive aqui dentro só está em regime semiaberto.