
Existe uma frase que atravessa a pele antes de chegar ao pensamento. Lobo criado com cachorro será sempre lobo. E talvez o incômodo que ela provoca venha exatamente daí, porque nos lembra de algo que muita gente tenta esquecer. A essência não se apaga. No máximo, se disfarça por um tempo.
Há pessoas que passam a vida tentando te domesticar. Não porque te odeiam, mas porque não sabem lidar com aquilo que não controlam. Querem te ensinar a sentar, a obedecer, a agradecer por migalhas. Querem que você caiba em espaços pequenos, em regras estreitas, em expectativas que nunca foram feitas para você. E fazem isso sorrindo, chamando de cuidado aquilo que, no fundo, é medo da sua liberdade.
Desde cedo, aprendemos que adaptar se é sobreviver. E é verdade. Mas ninguém nos avisa do risco de se adaptar demais e, nesse processo, ir se perdendo. Você tenta falar mais baixo, sonhar menos, desejar com moderação. Aprende a pedir desculpa por existir em intensidade. Aprende a fingir que é igual, mesmo sabendo que nunca foi.
Só que existe algo em você que não se curva. Algo que não aceita coleira. Uma inquietação que não se satisfaz com quintal cercado, por mais confortável que ele pareça. Você pode até aprender os comandos, até repetir os gestos, até andar em fila. Mas, no silêncio, sabe. Não nasceu para buscar osso. Nasceu para correr livre.
O problema nunca foi ser diferente. O problema é o quanto o mundo tenta convencer você de que ser diferente é um erro. Que ser intenso cansa. Que ser profundo assusta. Que ser verdadeiro incomoda. E incomoda mesmo. Porque quem vive no automático se sente ameaçado por quem vive desperto.
Há um preço em não se deixar domesticar. Você perde lugares, perde companhias, perde convites. Mas ganha algo muito mais raro. Coerência interna. Ganha a paz de não precisar se diminuir para caber. Ganha a lucidez de entender que nem todo afeto é cuidado e nem toda aproximação é abrigo.
Ser lobo num mundo de cachorros domesticados é aceitar a solidão em alguns momentos. É saber que liberdade não combina com aprovação constante. Mas também é reconhecer que viver preso, só para não desagradar, custa caro demais.
No fim, está tudo bem não caber. Está tudo bem não se moldar. Está tudo bem ser lobo. Porque natureza não se negocia. Se reconhece. Se honra. E se protege.