
Sinto muito. Eu mudei.
E essa frase não nasce da arrogância, nem do orgulho. Ela nasce da consciência. Daquela que só chega depois que a vida ensina do jeito mais difícil.
Hoje, a minha versão é mais sábia. Não porque sabe mais, mas porque já sentiu demais. Já confiou onde não devia. Já permaneceu onde não era cuidado. Já insistiu em relações que exigiam esforço unilateral. E isso ensina. Sempre ensina.
Minha tolerância para certas coisas diminuiu. E isso não me tornou pior. Me tornou mais atento. Aprendi que nem tudo merece conversa longa, explicação detalhada ou mais uma chance. Algumas situações pedem apenas distância. E algumas pessoas, silêncio.
Ainda continuo sendo uma pessoa amável. Isso não mudou. O que mudou foi o acesso. O que mudou foi a entrega sem critério. O que mudou foi a necessidade de agradar para ser aceito. Hoje, eu escolho onde fico, com quem fico e até onde vou.
Amar não significa suportar tudo. Ser educado não significa aceitar desrespeito. Ser empático não significa se abandonar. Essas confusões custam caro. Custam tempo, energia e, muitas vezes, a própria identidade.
Mudar dói. Porque junto com a mudança vem a perda de versões antigas de nós mesmos. Aquela pessoa que aceitava menos do que merecia. Aquela que explicava demais. Aquela que sempre dava mais uma chance. Deixar essas versões para trás exige coragem.
Nem todos merecem o melhor de mim. E admitir isso foi libertador. Não porque eu me tornei frio, mas porque parei de ser ingênuo. Quem soma permanece. Quem respeita se aproxima. Quem exige demais e oferece de menos, naturalmente se afasta.
Hoje, eu escuto mais meus limites do que as expectativas alheias. Escuto meu cansaço. Escuto meu incômodo. Escuto o que meu silêncio tenta dizer quando algo não faz bem. Isso não é egoísmo. É sobrevivência emocional.
Algumas pessoas vão dizer que você mudou quando, na verdade, você apenas parou de aceitar o que sempre te machucou. Outras vão sentir sua ausência quando perceberem que não podem mais ultrapassar seus limites sem consequência.
Mudar é um ato de amor próprio. É entender que ser bom não exige ser disponível o tempo todo. Que ser amável não exige tolerar o intolerável. Que crescer é, muitas vezes, aprender a dizer não sem culpa.
Então sim, eu mudei.
Estou mais consciente. Mais seletivo. Mais inteiro.
Ainda sou amável. Só não sou mais acessível a qualquer custo.