
Há dores que, de tanto doer, acabam se aquietando.
Não porque deixaram de existir, mas porque já não encontram mais espaço dentro da gente.
É como se, em algum ponto, o coração aceitasse que certas histórias se esgotam e que o amor, por mais bonito que tenha sido, também pode cansar.
A vida tem um jeito curioso de ensinar o que é o fim.
No começo, vem o espanto. Depois, a tentativa de remendo.
Mas chega um instante em que o olhar se volta para dentro e, sem perceber, a alma já começa a se despedir.
E o que antes era lágrima vira compreensão.
É quando a gente descobre que a ausência também educa.
Há um alívio silencioso que chega depois do pranto.
Não é alegria, é leveza.
Não é vingança, é consciência.
É entender que o que partiu já não cabia — e que insistir seria uma forma de permanecer ferido.
Há quem chame isso de frieza, mas é apenas cansaço de sofrer.
É o corpo dizendo: “agora basta”.
Ninguém se recupera de uma traição, de uma perda ou de uma despedida do dia pra noite.
Mas, aos poucos, o coração vai encontrando outro ritmo.
E o que antes era desespero vira calma.
Um dia, sem anúncio, a gente acorda e percebe que o nome que tanto doía já não pesa tanto ao ser lembrado.
Não é esquecimento é paz.
É o reconhecimento de que não era o fim do amor, era o começo do amor-próprio.
Recomeçar não é apagar o que aconteceu, é deixar que a vida siga sem exigir devolução.
É festejar não porque o outro perdeu, mas porque você voltou a se encontrar.
E talvez seja isso que a vida tenta nos dizer quando tudo desaba:
que o verdadeiro castigo não é o que desejamos ao outro, mas o que causamos a nós mesmos quando permanecemos onde não há mais reciprocidade.
O tempo se encarrega do resto.
Ele seca as lágrimas, suaviza as lembranças e devolve ao peito a vontade de sorrir.
E quando o riso volta, ele vem limpo sem deboche, sem raiva, sem intenção de provar nada.
Apenas o riso simples de quem sobreviveu à própria dor.
É nesse instante que o samba começa por dentro.
Não há batuque, não há festa.
Só o compasso leve de quem aprendeu, serenamente, que a vida sempre continua.