Depois do pranto — por André Luiz Santiago Eleuterio

Foto de André Luiz Santiago Eleutério, autor do Pensamento Diário com reflexões emocionais sobre a vida
André Luiz Santiago Eleutério

Há dores que, de tanto doer, acabam se aquietando.

Não porque deixaram de existir, mas porque já não encontram mais espaço dentro da gente.

É como se, em algum ponto, o coração aceitasse que certas histórias se esgotam e que o amor, por mais bonito que tenha sido, também pode cansar.

A vida tem um jeito curioso de ensinar o que é o fim.

No começo, vem o espanto. Depois, a tentativa de remendo.

Mas chega um instante em que o olhar se volta para dentro e, sem perceber, a alma já começa a se despedir.

E o que antes era lágrima vira compreensão.

É quando a gente descobre que a ausência também educa.

Há um alívio silencioso que chega depois do pranto.

Não é alegria, é leveza.

Não é vingança, é consciência.

É entender que o que partiu já não cabia — e que insistir seria uma forma de permanecer ferido.

Há quem chame isso de frieza, mas é apenas cansaço de sofrer.

É o corpo dizendo: “agora basta”.

Ninguém se recupera de uma traição, de uma perda ou de uma despedida do dia pra noite.

Mas, aos poucos, o coração vai encontrando outro ritmo.

E o que antes era desespero vira calma.

Um dia, sem anúncio, a gente acorda e percebe que o nome que tanto doía já não pesa tanto ao ser lembrado.

Não é esquecimento é paz.

É o reconhecimento de que não era o fim do amor, era o começo do amor-próprio.

Recomeçar não é apagar o que aconteceu, é deixar que a vida siga sem exigir devolução.

É festejar não porque o outro perdeu, mas porque você voltou a se encontrar.

E talvez seja isso que a vida tenta nos dizer quando tudo desaba:

que o verdadeiro castigo não é o que desejamos ao outro, mas o que causamos a nós mesmos quando permanecemos onde não há mais reciprocidade.

O tempo se encarrega do resto.

Ele seca as lágrimas, suaviza as lembranças e devolve ao peito a vontade de sorrir.

E quando o riso volta, ele vem limpo sem deboche, sem raiva, sem intenção de provar nada.

Apenas o riso simples de quem sobreviveu à própria dor.

É nesse instante que o samba começa por dentro.

Não há batuque, não há festa.

Só o compasso leve de quem aprendeu, serenamente, que a vida sempre continua.

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