
Tem gente que entra na nossa vida e parece que deixa um rastro que a gente nunca mais consegue apagar. Um olhar, uma palavra, uma lembrança. Ficam ali, mesmo quando a gente tenta seguir em frente. E é por isso que, às vezes, o maior desejo não é se afastar. É esquecer. É desconhecer. É como se o coração gritasse: “Eu queria nunca ter conhecido”.
É estranho dizer isso, porque parece que estamos sendo ingratos ou duros demais. Mas a verdade é que tem gente que machuca só por ter passado pela nossa história. E o pior: essas pessoas nem sempre fizeram algo grave. Às vezes, é o simples fato de terem existido, de terem compartilhado momentos, de terem entrado em espaços que agora a gente gostaria de manter fechados.
Se afastar não resolve. Quando a lembrança está viva, não adianta mudar de cidade, bloquear nas redes sociais, parar de falar. A mente continua repetindo cenas como se fosse um filme sem fim. Por isso, o desejo vai além. É um sonho, quase um pedido ao impossível: eu queria, de verdade, nunca ter conhecido. Nunca ter trocado uma palavra. Nunca ter aberto um sorriso. Nunca ter permitido que aquela pessoa me visse de um jeito que nem eu mesmo me enxergava.
Esse tipo de dor não tem nome certo. Não é só saudade. Não é só arrependimento. É uma mistura confusa que machuca em silêncio. A gente vive, trabalha, conversa com os outros… mas dentro da gente fica aquele vazio, aquela pergunta: “E se eu nunca tivesse cruzado com aquela pessoa?”. Talvez eu não tivesse me quebrado tanto. Talvez eu confiasse mais nas pessoas. Talvez eu ainda acreditasse que certos vínculos duram pra sempre.
O mais difícil é aceitar que aquilo que um dia foi tão bonito se transformou em algo que a gente gostaria de apagar por completo. A mente insiste em lembrar. As emoções não deixam passar. Porque quando a gente compartilha parte da vida com alguém, essa parte se mistura com quem a gente é. E aí, como apagar isso sem apagar um pedaço de si mesmo?
É por isso que esse sonho o de desconhecer pessoas é tão profundo. Ele carrega um desejo de recomeço. Um recomeço de verdade, do zero. Sem mágoa, sem história, sem marca. Só o silêncio do que nunca foi. É como desejar voltar no tempo e escolher outro caminho, uma estrada onde aquele encontro nunca teria acontecido.
Muita gente pode dizer que tudo na vida é aprendizado. Que até os encontros ruins servem pra ensinar algo. E talvez seja verdade. Mas algumas lições a gente pagou caro demais pra aprender. Algumas pessoas deixaram cicatrizes que doem mesmo depois de anos. E não tem sabedoria no mundo que compense o preço de certas dores.
Então sim, meu sonho era poder desconhecer. Não por ódio, não por raiva. Mas por proteção. Porque tem gente que foi veneno disfarçado de abraço. Tem gente que chegou prometendo céu e deixou a gente preso no chão. Tem gente que levou embora a paz e deixou só o eco de tudo que não foi dito.
Não desejo o mal. Só desejo distância. Desejo o direito de esquecer. De não ter conhecido. De não ter dividido minha vida. De não ter que carregar, mesmo em silêncio, a lembrança de quem não merecia lugar nenhum em mim. Se isso fosse possível, talvez minha alma estivesse mais leve. Talvez eu pudesse dormir sem tantos pensamentos. Talvez eu nem soubesse o que é sentir essa dor quieta, escondida, que só quem já desejou esquecer entende.
Porque tem dores que não gritam. Elas apenas ficam. Caladas. Presas na gente. E tudo que a gente queria era nunca ter dado espaço pra elas existirem.