
Há dores que chegam sem anunciar, mas decidem ficar como se fossem donas do lugar. Dores que não pedi, não provoquei, não plantei mas que fincaram raízes em mim. Elas vieram de ausências que criaram buracos, de promessas que não foram cumpridas, de silêncios que gritaram fundo demais.
E eu senti.
Senti mais do que deveria.
E calei mais do que merecia.
Há marcas que não têm forma, mas têm peso.
Há lembranças que não têm corpo, mas ocupam espaço.
E por muito tempo, carreguei tudo isso como se fosse obrigação minha segurar o mundo que desabou nas mãos dos outros.
Hoje, não mais.
Hoje, eu quero me curar.
Curar do que não causei, mas que me feriu.
Curar das palavras que não vieram, dos abraços que não chegaram, das presenças que nunca souberam ser presença.
Curar das expectativas que me colocaram, das que coloquei em mim, e das que permiti que me despedaçassem por dentro.
Quero me libertar das dores que outros deixaram, mas que eu teimei em transformar em parte da minha história.
Não por fraqueza mas porque senti demais.
Porque amei demais.
Porque fiquei quando já não havia mais espaço para mim.
A cura, agora, não é um pedido. É uma decisão.
É o instante em que olho para minhas cicatrizes e, pela primeira vez, não sinto medo delas.
Sinto força.
Elas estão aqui.
Não como lembrança do que perdi,
mas como prova do que sobrevivi.
A cura começa quando a gente larga o costume de insistir no que não nos serve mais.
Quando a gente se permite soltar o que sufoca.
Quando entende que algumas dores só permaneceram porque eu permaneci também.
Hoje, escolho seguir.
Não porque o caminho ficou fácil, mas porque eu finalmente entendi que continuar também é uma forma de coragem.
E que o coração, quando decide viver outra vez, sabe exatamente para onde quer ir.
A cura que busco não é imediata.
É lenta, honesta, profunda.
É uma reconstrução silenciosa, uma limpeza emocional que não precisa ser vista por ninguém mas precisa ser sentida por mim.
Eu quero me curar das memórias que ainda me puxam para trás.
Quero me curar do amor que doeu, da entrega que não voltou, da doação que virou ferida.
Quero me curar do que ainda pesa em mim quando fecho os olhos.
A cura que escolho é minha.
O recomeço que nasce é meu.
A paz que chega, finalmente, carrega meu nome.
E se Deus age no silêncio, então é nesse silêncio que eu descanso.
Porque, mesmo sem pressa, Ele faz tudo florescer no tempo certo.
E hoje, no meu tempo certo, a cura começa.
Aqui.
Agora.
E é minha.