André Luiz Santiago Eleutério – A dor que a gente finge que superou

Foto de André Luiz Santiago Eleutério, autor do Pensamento Diário com reflexões emocionais sobre a vida
André Luiz Santiago Eleutério

Todo mundo já viu essa cena: término recente, e do nada, foto com o novo.

Não é coincidência.

É padrão.

A substituição-relâmpago virou resposta automática ao fim.

Mas o que essa pressa tanto tenta esconder?

Muitos homens gays cresceram sem segurança afetiva.

Treinados a esconder sentimentos, aprendemos a performar, inclusive o “estar bem” depois de um fim.

A estética do “já superei” virou armadura.

Sentir virou fraqueza.

Mostrar dor, proibido.

Match novo, ego abastecido, narrativa atualizada.

A lógica dos apps preenche o vazio — mas só por fora.

A foto com o novo parece vitória, mas muitas vezes é só medo travestido de desapego.

A substituição imediata não é sobre o novo,

é sobre evitar o buraco deixado pelo antigo.

O luto virou tabu.

Sentir virou luxo.

E o que não é vivido… volta.

Disfarçado de ansiedade, insônia ou repetição.

Romper esse ciclo não é romantizar a dor,

é parar de mentir pra si mesmo.

Ficar só.

Sentir falta.

Chorar, se for preciso.

É nesse espaço que a verdadeira superação começa.

Redefinir masculinidade entre homens gays é criar espaço para o afeto real.

Dizer “não tô bem” também é força.

Superar não é performar indiferença —

é deixar de precisar provar que seguiu em frente.

Quer saber se superou?

Olha pro que ainda te provoca.

Se ainda precisa mostrar algo, talvez ainda esteja fugindo.

A real superação não precisa de plateia.

Substituir não é superar.

É só uma maneira disfarçada de fugir do luto.

E quem foge do luto… foge de si mesmo.

Quantas vezes você chamou de superação o que, no fundo,

era só medo de sentir de novo?

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