
A vida tem formas duras de ensinar. Às vezes, ela não grita, apenas mostra em silêncio, no abandono, na ausência, na ingratidão. O tempo passa, e a gente percebe que não importa o quanto você se doa, o quanto é leal, verdadeiro ou presente. As pessoas escolhem ser o que querem ser, e isso não depende de você.
É difícil aceitar que sua entrega não garante a permanência de ninguém. Você pode ser o melhor amigo, o ombro mais disponível, o porto mais seguro. Ainda assim, quem quiser partir, vai partir. Quem quiser trair, vai trair. Não é sobre o que você oferece, é sobre o que o outro decide ser. Isso fere de um jeito estranho, porque a gente sempre acha que amor, amizade, respeito e lealdade se devolvem. Mas não. Não se devolvem, se decidem.
Essa consciência dói porque a gente foi ensinado que se plantarmos o bem, colheremos o bem. Só que esquecem de contar que, no meio do caminho, há pessoas que arrancam flores e deixam espinhos. Gente que se aproveita do seu coração limpo e do seu cuidado sincero para se curar das próprias feridas, mas não pensa duas vezes antes de abrir novas em você. E quando você sangra, elas já foram embora.
A lealdade é escolha, não resposta. Você pode ser o mundo de alguém, mas se esse alguém quiser viver outro universo, você não pode impedir. Você pode ser o mais correto, o mais verdadeiro, o mais presente. Mas se a pessoa escolher ser ausente, dissimulada ou ingrata, não é você quem vai mudar isso.
E aqui mora a parte mais dura: entender que o amor que você entrega não muda o caráter de ninguém. Suas atitudes não compram valores que o outro não tem. E a sua verdade não ilumina corações que insistem em viver na escuridão. Lealdade não se força, não se implora, não se ensina. Lealdade se tem. E quem não tem, não aprende, porque não quer aprender.
A dor que vem dessa constatação é silenciosa. Não faz escândalo. Ela apenas se instala, como um vazio no peito. Você olha para trás e vê tudo o que foi, tudo o que fez, tudo o que acreditou. E percebe que nada disso foi suficiente. Mas não porque faltou em você. Faltou no outro. Faltou vontade de ser recíproco, de ser inteiro, de ser humano.
A vida, com toda sua dureza, vai ensinando a gente a não criar expectativa em cima da entrega do outro. A entender que cada um é o que quer ser, e que a sua presença não obriga ninguém a ficar. O seu amor não obriga ninguém a amar. E a sua fidelidade não prende ninguém que escolhe ser infiel.
No fim das contas, a única coisa que resta é a paz de ter sido inteiro. De não ter se escondido. De ter amado, cuidado, respeitado. De ter sido leal. Mesmo que isso não tenha voltado da mesma forma. Porque, no fim, o que vale é a consciência limpa. É saber que você fez o seu melhor, mesmo que o outro tenha escolhido o pior.
E, aos poucos, você aprende a não se culpar. Aprende a deixar ir. Aprende a não se diminuir por causa da escolha de alguém. Você não é menos por ter sido descartado. Você é mais, porque, mesmo depois da dor, continua sendo luz em um mundo de sombras. Porque, mesmo depois da decepção, ainda acredita no bem.
A vida mostrou, com lágrimas, silêncios e partidas, que não se controla a lealdade de ninguém. Mas também mostrou que ser leal, mesmo em um mundo que não sabe retribuir, ainda é a escolha mais bonita que alguém pode fazer.