
Há um momento em que o silêncio fala mais do que qualquer justificativa. É quando a gente se depara com a própria história, e percebe que nem tudo precisa ser motivo de arrependimento. Existem caminhos que não saíram como planejado, escolhas que hoje soam distantes, e versões de nós mesmos que já não reconhecemos. Mas tudo isso faz parte do que nos trouxe até aqui. Cada erro, cada desvio, cada dor foi matéria-prima da transformação.
A vida tem um jeito curioso de ensinar. Às vezes, ela nos empurra para o caos só para mostrar que também somos capazes de reconstruir. Não é fraqueza ter se perdido, nem vergonha ter confiado no que parecia certo. É apenas o movimento natural de quem aprende vivendo. O problema é que crescemos acreditando que deveríamos ter sido perfeitos o tempo todo, quando a perfeição nunca foi o destino foi apenas uma distração.
Ser gentil com a própria história é um gesto de coragem. É admitir que não somos o que erramos, mas o que escolhemos fazer depois de errar. É permitir-se olhar para o passado sem se punir, entendendo que até o que doeu construiu o que hoje sustenta. Há beleza na cicatriz, porque ela é a prova de que, mesmo ferido, o corpo se curou. Da mesma forma, há sabedoria em cada lembrança que antes pesava e hoje apenas ensina.
Nem tudo o que vivemos precisa ser amado. Mas tudo merece ser olhado com respeito. Há experiências que não deixaram saudade, mas deixaram lições. Há pessoas que partiram, mas deixaram clareza sobre o que não queremos mais. E há dias em que só sobreviver já foi o suficiente. A gentileza com a própria história é isso: reconhecer que sobrevivemos, mesmo quando parecia que não conseguiríamos.
Talvez o maior gesto de amor próprio seja perdoar quem fomos. Não para esquecer, mas para seguir em paz. Porque enquanto carregamos culpa, seguimos olhando para trás com olhos que nos julgam. Mas quando escolhemos a compreensão, passamos a olhar com olhos que abraçam. E é nesse instante que o passado deixa de ser um peso e se transforma em raiz firme, profunda, essencial.
A vida continua pedindo leveza, e essa leveza começa quando paramos de lutar contra o que já aconteceu. Não há como reescrever o ontem, mas há sempre a chance de mudar o modo como o enxergamos. Gentileza com a própria história é isso: é parar de se ferir com lembranças e começar a agradecer pelo que elas nos ensinaram.
Você não precisa se orgulhar de tudo o que viveu. Basta reconhecer que, apesar de tudo, ainda está aqui inteiro, aprendendo e recomeçando.