
Nunca recebi um pedido de desculpas pela maneira como fui tratada.
Essa frase carrega um peso que não aparece à primeira leitura. Porque não se trata apenas da ausência de um pedido de desculpas. Trata se da ausência de reconhecimento da dor. Trata se da negação de que algo machucou profundamente.
Em vez disso, fui culpada pela reação que tive.
Como se reagir à dor fosse um erro maior do que causá la. Como se sentir fosse um exagero. Como se expressar sofrimento fosse um problema a ser corrigido, e não um sinal de que algo ultrapassou limites.
Fui culpada pela dor que expressei.
Mas ninguém se perguntou de onde essa dor veio. Ninguém quis olhar para o que provocou o choro, a raiva, o silêncio pesado, o cansaço emocional. É mais fácil apontar o dedo para quem reage do que assumir a responsabilidade por quem feriu.
Fui culpada pela raiva que senti.
Como se a raiva não fosse uma emoção legítima. Como se ela não fosse um grito interno pedindo respeito. A raiva muitas vezes nasce quando o limite é ultrapassado repetidas vezes, quando a escuta falha, quando a empatia não acontece.
Fui culpada pela forma como tentei lidar com tudo.
Mas ninguém ensinou como atravessar dores profundas sem se machucar no processo. Ninguém oferece manual quando o coração está sobrecarregado. Cada pessoa lida com o sofrimento com as ferramentas emocionais que tem naquele momento.
Existe uma violência silenciosa em invalidar sentimentos.
Quando alguém ignora o que causou a dor e passa a criticar apenas a reação, cria se um ciclo de culpa emocional. A pessoa começa a duvidar de si, da própria percepção, da própria sensibilidade. E isso machuca tanto quanto a dor inicial.
Responsabilizar alguém pela reação é confortável.
Isenta quem feriu. Diminui o impacto do erro. Coloca o peso todo em quem já estava fragilizado. E aos poucos, a dor deixa de ser compartilhada e passa a ser carregada sozinha.
Mas sentir não é errado.
Reagir não é fraqueza.
Expressar dor não é exagero.
Errado é ferir e não reconhecer.
Errado é machucar e depois apontar o dedo para quem sangrou.
Errado é exigir silêncio emocional de quem foi atravessado pela dor.
Esse texto não é sobre vingança.
É sobre consciência emocional.
É sobre validar o que foi sentido.
É sobre entender que ninguém deveria pedir desculpas por reagir a algo que doeu.
Porque quando a dor é real, a reação também é.