
Há um ponto na vida em que o coração deixa de ter paciência.
Acontece devagar, começa no incômodo, no estranhamento, naquele desconforto que a gente tenta negar.
Mas um dia, sem pedir licença, vira nojo — do nome, do rosto, da voz, da lembrança inteira.
Não é exagero.
É cansaço acumulado.
É o corpo dizendo que aquilo passou do limite há muito tempo.
Algumas pessoas deixam marcas que não são cicatrizes bonitas.
São marcas que queimam.
Marcas que o tempo não suaviza, porque não nasceram de algo que fez bem, mas de algo que evitou nossa queda por um tempo até nos derrubar.
E vem aquela verdade dura, quase cruel:
se fosse possível voltar atrás, não teria sequer cruzado o caminho.
Isso não é raiva.
É lucidez.
É a clareza que só chega depois da tempestade, quando finalmente vemos quem sempre fomos e o quanto fomos pequenos para caber em algo que nunca nos mereceu.
O nojo aparece quando a alma termina o luto.
Quando entende que insistiu onde já não havia nada.
Quando enxerga que algumas presenças não foram encontros, foram desvios.
E não existe culpa em sentir isso.
O corpo sabe quando precisa se proteger.
A mente sabe quando precisa fechar a porta.
O coração, por mais teimoso que seja, um dia aprende a dizer “chega”.
A reflexão que fica é simples e dura:
o que hoje te causa nojo já te pediu socorro muitas vezes mas você tentou salvar.
Agora é você quem precisa se salvar.
E nesse instante, o afastamento deixa de ser escolha.
Vira necessidade.
Vira cura.
Vira liberdade.