
Tá sentindo falta? Falta de quê, exatamente?
Das migalhas?
Do mínimo?
Da confusão?
Daquele roteiro caótico que você decorou sem perceber?
Porque, convenhamos, quando a gente diz “tô com saudade”, na maioria das vezes não é do amor é do vício emocional. Daquele drama que fazia o coração bater rápido… mas não por paixão: por alerta. Era ansiedade disfarçada de intensidade. Era desgaste fantasiado de “química”. E você chamava de destino o que, no fundo, era só desordem afetiva.
Vamos lá, respira fundo e pensa comigo:
Você sente falta da instabilidade?
Da incoerência?
Da necessidade constante de cobrar o básico, como quem mendiga um afeto que deveria vir espontâneo?
Porque é curioso, né? A gente sai de uma relação completamente torta e, duas semanas depois, o cérebro começa a romantizar o caos. Esquece do que doeu, lembra só do que brilhou mesmo que tenha sido uma lâmpada fraca piscando no fim do corredor.
O cenário era um caos, e você sabe disso. Um caos cheio de curvas perigosas, buracos emocionais e placas de “não insista” que você arrancava com a mão. E agora me aparece com saudade? Saudade de quê?
De correr atrás enquanto o outro caminhava?
De tentar adivinhar o humor do dia, como quem tenta prever o clima sem previsão?
De dormir mal, acordar pior e ainda dizer que “vai passar”?
Passar onde? Passar por cima de quem?
De você.
Sim, é duro de ouvir. Mas necessário. Porque a saudade, às vezes, não é pelo outro. É pelo papel que você desempenhava. E quando você se despe do personagem que interpretou por tanto tempo, sobra um vazio que não é sobre o outro é sobre você finalmente encarar quem ficou.
E aí vem a parte bonita, apesar de ácida:
Esse vazio é o espaço que a paz precisa para entrar.
O problema é que, no começo, paz parece tédio para quem se acostumou ao caos.
Paz parece ausência.
Parece falta.
Parece… saudade.
Mas não é.
É saúde.
É silêncio onde antes havia barulho.
É equilíbrio onde antes havia desespero.
É clareza onde antes havia drama.
E talvez o que você esteja chamando de saudade seja só abstinência emocional de um ambiente que te adoecia. Porque quando a pessoa não te dava o básico, qualquer migalha parecia banquete. E agora que você está longe, o seu cérebro tenta te enganar, como quem diz: “Volta lá. Vai que agora é diferente.”
Não vai.
Você não está sentindo saudade da pessoa.
Está sentindo falta da versão de você que acreditava que aquilo era amor.
E essa versão… ficou no passado.
Ainda bem.