
Se um dia me virem sendo ruim com alguém, acreditem: é apenas o fim de uma história que começou com o meu melhor. Porque, antes de qualquer frieza, eu ofereci afeto. Antes de qualquer silêncio, eu dei presença. Antes de qualquer distância, eu dei tudo o que eu tinha de mais leve e de mais raro. Mas existe um limite silencioso que ninguém vê, e que só se rompe quando o cansaço vence a esperança.
É curioso como as pessoas só enxergam o resultado, nunca o processo que nos trouxe até aqui. Julgam o momento, ignoram o percurso. Apontam o dedo, mas não seguram a culpa. Para elas, a mudança parece brusca. Para mim, foi lenta, dolorosa, construída em pequenas decepções que se acumulam como poeira nos cantos da alma. Uma hora, o ar fica pesado demais para fingir que nada está acontecendo.
O lado bom, quando oferecido a quem não sabe receber, vai morrendo um pouco por dia. Primeiro, perde a cor. Depois, a paciência. Por último, a vontade. E não há nada mais sombrio do que perceber que aquilo que você entregou com o coração aberto foi usado como porta de entrada para golpes que ninguém mais enxerga. Machucam sem barulho. E como tudo o que é silencioso, doeu mais.
Eu não me tornei duro da noite para o dia. Fui ficando assim. Fui sendo empurrado para essa versão que hoje me protege, mas que antes eu teria vergonha de mostrar. Porque, no fundo, ninguém quer admitir que também cansa de ser bom. Que também sangra onde mais tentou acertar. Que também fecha a porta quando percebe que insistir é só mais um jeito de se destruir.
Ser “ruim”, às vezes, é apenas o nome que dão quando você decide parar de aceitar o que sempre te doeu. É quando você recolhe o que sobrou de si e coloca de volta no peito, mesmo quebrado, mesmo torto. É quando você entende que há pessoas que só respeitam limites quando encontram muros e que alguns muros são construídos com as ruínas do que você tentou preservar.
Não existe glória em endurecer. Existe sobrevivência. E sobreviver, algumas vezes, exige escolhas escuras, silenciosas e necessárias. A bondade, quando não é reconhecida, se transforma em cicatriz. E a cicatriz, quando velha, perde a sensibilidade. Vira pele grossa. Vira armadura.
Então, se um dia me virem sendo frio, saibam: é porque já fui quente demais e queimaram o que havia.
Se me virem distante, é porque já estive perto ao ponto de desaparecer de mim mesmo.
Se me virem firme, é porque já tremi por quem nunca mereceu.
Eu não deixei de ser bom.
Eu só deixei de ser disponível para quem só sabia somar peso onde eu tentava somar paz.
No fim, não sou ruim.
Sou consequência.