
Às vezes, a gente passa tanto tempo tentando manter alguém ao nosso lado que nem percebe o quanto está ficando pequeno dentro da própria história.
A verdade é que algumas pessoas só fazem o que fazem porque acreditam que a gente não vai embora.
E, por um tempo, não vai mesmo.
A gente tenta, respira fundo, cria desculpas, inventa paciência onde já não existe.
É quase automático: o coração insiste, mesmo quando a alma já está cansada.
Só que chega uma hora em que algo dentro da gente muda.
Não é explosão, não é raiva, não é ataque.
É só um despertar.
Um “já deu” que aparece silencioso, mas firme como quem finalmente escuta a própria voz depois de muito tempo abafada.
O amor-próprio não chega gritando.
Ele chega claro.
Chega como aquela lucidez que ilumina um cômodo escuro e revela, sem esforço, tudo que a gente fingia não ver.
E quando ele fala, não tem resistência que segure.
É nesse instante que o peso que a gente carregava deixa de fazer sentido.
E a partida acontece não por vingança, não para provar nada, mas porque continuar machuca mais do que ir embora.
O mais curioso é que quem sempre acreditou na nossa permanência nunca espera esse movimento.
Elas se acostumam com a nossa entrega, com a nossa volta, com a nossa disposição infinita de tentar.
Mas amor não é salário garantido.
E quando o amor-próprio acorda, ele reorganiza tudo: prioridades, limites, caminhos.
Ele devolve cor ao que havia desbotado.
Ir embora não é fraqueza.
É coragem de se escolher.
É entender que ninguém merece a versão esgotada de quem somos.
E que o amor que damos ao outro nunca pode ser maior do que o que guardamos por nós.
Existe um ponto em que a gente simplesmente vai e vai sereno.
Não tem aviso.
Não tem anúncio.
Tem só a certeza mansa de que permanecer seria abrir mão de si mesmo.
E, no fim, é isso que eu aprendi:
quem não cuida, perde.
E quem se cuida, volta a se encontrar.