
Nossas diferenças são muitas, inclusive políticas. E ainda bem que são. O contrário disso seria um mundo de espelhos, onde cada um só enxergaria a própria voz, o próprio reflexo, o próprio ego inflado de razão. A convivência humana se torna impossível quando a unanimidade se torna o objetivo porque unanimidade é o túmulo da liberdade.
Faz parte da civilização conviver com gente que pensa diferente de nós. Mas isso parece ter virado uma arte perdida. Vivemos um tempo em que as pessoas confundem opinião com identidade, e qualquer discordância é tratada como ofensa pessoal. Se alguém discorda, não é um interlocutor: é um inimigo. É como se pensar diferente fosse um crime moral.
A verdade é que nos tornamos mimados intelectualmente. Queremos o conforto de estar cercados apenas por quem concorda conosco, por quem valida nossos discursos, nossas crenças, nossos medos e raivas. Criamos bolhas de certezas frágeis, mas acolhedoras. E nelas, a civilização adoece em silêncio.
Conviver com o diferente exige maturidade emocional, e isso é o que mais falta. Tolerar é fácil quando o outro é um espelho; difícil é quando o outro nos obriga a pensar, a revisar certezas, a questionar o que consideramos inquestionável. Civilização é isso: o incômodo que educa, a diferença que ensina, o conflito que não destrói, mas transforma.
O problema é que preferimos a ilusão da pureza ideológica. Esquecemos que o mundo é feito de nuances, e não de lados. Esquecemos que toda ideia carrega contradições, que toda convicção precisa de um limite, que toda verdade pode se tornar uma mentira quando imposta à força.
Quando deixamos de ouvir o outro, deixamos também de evoluir. A diversidade de pensamento é o que mantém a humanidade em movimento. Sem ela, nos tornamos uma massa uniforme, obediente e previsível o sonho de todo autoritário, o pesadelo de qualquer mente livre.
E talvez seja essa a ironia do nosso tempo: gritamos por liberdade, mas só suportamos a liberdade que se parece conosco. É uma liberdade seletiva, feita sob medida para o próprio ego. Queremos respeito, mas só o damos a quem repete o que acreditamos. Queremos diálogo, mas apenas com quem já concorda. Isso não é civilização. É um infantilismo disfarçado de consciência.
Conviver com quem pensa diferente não é fácil, mas é necessário. É o que impede o mundo de virar uma seita, uma aldeia de certezas pequenas. A democracia começa exatamente onde termina o conforto. E a civilização, essa palavra tão grande, só existe porque há contraste porque há o outro.
Nossas diferenças são muitas, inclusive políticas. E que bom que são. O perigo não está nelas, mas na nossa incapacidade de lidar com elas. A maturidade de um povo não se mede pela quantidade de acordos, mas pela forma como suporta o desacordo.