Estava aqui pensando…” – por André Luiz Santiago Eleutério

Foto de André Luiz Santiago Eleutério, autor do Pensamento Diário com reflexões emocionais sobre a vida
André Luiz Santiago Eleutério

Entre Bernard do vôlei e Hulk da Marvel: quando os nomes ainda carregavam mágica

Estava aqui pensando… A gente era muito mais feliz quando Bernard, Dante e William eram jogadores da seleção brasileira de vôlei daqueles tempos em que a gente parava tudo pra ver a Liga Mundial na TV aberta. Oscar era o nosso maior nome no basquete, metendo bola de três antes do Curry nascer. Luís Gustavo era ator, fazia comédia no Sai de Baixo, Jô era Soares, o gênio das entrevistas de madrugada. Hulk era um monstro verde que destruía tudo nas telonas. Júlio César? Imperador romano nas aulas de história. E Fred… era o melhor amigo do Barney, nos Flintstones.

Hoje, os nomes são os mesmos, mas os sentidos são outros. Bernard? Muita gente nem sabe quem foi. Dante e William talvez sejam só nomes perdidos nas escalações antigas. Oscar virou o prêmio do cinema, Jô agora é centroavante, Hulk veste a camisa 7 do Atlético, Júlio César defende pênaltis não impérios e Fred virou ex-jogador com direito a despedida no Fantástico.

O curioso não é só a coincidência dos nomes. É o que eles carregavam antes e o que deixaram de carregar agora. A gente vivia numa época em que os nomes tinham alma, contexto, história. Bastava ouvir “Hulk” que a cabeça já criava a imagem: músculo, raiva, camisa rasgando. Hoje, a associação vem com chuteiras e coletiva de imprensa.

Há uma transição quase poética (ou tragicômica) aí. A travessia de um Brasil que saiu da televisão de tubo e entrou no TikTok. Antes, a referência era coletiva: todo mundo conhecia o Jô das madrugadas, o Fred das manhãs animadas, o Oscar da bola laranja. Hoje, tudo é fragmentado. Cada um com seu feed, seu algoritmo, seu próprio Hulk.

O tempo fez reboot nos significados, como se os nomes fossem aplicativos com atualizações automáticas. Só que nessa troca de versões, perdemos algo: a leveza das associações afetivas. Aquela alegria boba de lembrar que o Fred era um desenho animado e o Júlio César tinha um coliseu não um uniforme de goleiro.

Claro, é possível que tudo isso seja só nostalgia. Mas tem algo mais.
Uma percepção de que a era digital acelerou tanto as coisas que os nomes não têm mais tempo de sedimentar afeto. Eles entram e saem da moda, se tornam trends, viram hashtags, mas não permanecem como personagens da nossa memória.

A geração que viu o Jô entrevistar a Hebe não é a mesma que acompanha o Jô artilheiro do Brasileirão e tudo bem.
Mas o contraste é inevitável. E, às vezes, engraçado. Porque existe humor nesse desencontro de sentidos. E também uma certa ternura. Saber que um mesmo nome pode ser herói, apresentador ou jogador problemático é quase uma metáfora da vida: tudo depende do tempo em que você chega.

Estava aqui pensando… que talvez devêssemos valorizar mais esses nomes que cruzam gerações. Porque neles mora a prova de que a cultura é viva, mutável, até meio bagunçada e isso é lindo. Ainda dá pra rir quando alguém pergunta “o Fred da caverna ou do Fluminense?”, e isso, por si só, já é uma resistência à pressa dos dias atuais.

Quem viveu o tempo em que Hulk era só da Marvel talvez estranhe ver ele na capa do GloboEsporte. Quem só conhece o Jô como centroavante talvez nunca entenda o que foi a gargalhada da madrugada no sofá. Mas entre um significado e outro, há uma ponte: o nome. E o nome carrega memória, mesmo quando muda de rosto.

A gente não precisa escolher entre o passado e o presente. Mas podemos rir e refletir sobre como as palavras viajam no tempo. E lembrar que, no fim das contas, talvez sejamos todos isso: versões diferentes de um mesmo nome.

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