
Se você realmente quer encontrar a paz, há quatro pessoas que precisa perdoar. E esse não é um conselho moral, tampouco um pedido. É um convite silencioso, quase uma súplica, para que você compreenda que a sua liberdade está escondida atrás dessas portas fechadas, dessas feridas abertas, dessas memórias que você insiste em alimentar, como quem cuida de um jardim de espinhos.
A primeira pessoa que você precisa perdoar são seus pais. Eles podem ter errado, podem ter falhado, podem ter machucado, podem até ter ido embora antes que você pudesse compreender o que aconteceu. Talvez eles não tenham te dado aquilo que você queria, ou sequer aquilo que você precisava. Mas eles te deram a vida. E isso, por mais difícil que pareça, é o suficiente. Não se trata de minimizar suas dores, muito menos de apagá-las, mas de compreender que guardar rancor pelo que não foi não mudará nada. Carregar mágoa só te mantém preso a um passado que já não pode ser editado. O que foi possível, foi. O que não foi, jamais será. E nesse intervalo entre o que faltou e o que sobrou, você precisa encontrar um espaço para a gratidão e deixar o resto ir embora, como folhas levadas pelo vento.
Depois, as pessoas que você amou. E que, de alguma forma, te feriram, te abandonaram, ou simplesmente seguiram um caminho que não passava mais pelo seu. O amor, muitas vezes, não é suficiente para manter as pessoas ao nosso lado. Elas se vão, e ficam apenas lembranças que, se mal cuidadas, se transformam em correntes invisíveis. Pare de tentar reabrir portas que a vida, sabiamente, já fechou. Deseje paz a quem partiu, deseje cura a quem te feriu, mas não permaneça diante dessas portas, batendo nelas como quem insiste em voltar a um lugar que não existe mais. Aceitar a partida é uma forma madura e generosa de amor, talvez a mais difícil, mas também a mais libertadora.
Em seguida, perdoe todos os outros. Os amigos que traíram, os conhecidos que decepcionaram, os estranhos que machucaram sem sequer saber quem você é. Acreditamos, muitas vezes, que o perdão depende de um pedido formal, de um arrependimento explícito, mas não é assim. Você não precisa de um pedido de desculpas para perdoar. O perdão é uma escolha íntima, que nada tem a ver com o outro, mas tudo a ver com a sua necessidade de paz. Guardar mágoa não corrige o erro, não desfaz a dor, não protege de novas decepções. Pelo contrário: alimenta um ciclo tóxico que consome sua energia e afasta sua serenidade. Limpe a bagunça que os outros deixaram na sua vida, não por eles, mas por você. A paz que você busca não depende da mudança do outro, mas da sua própria decisão de não carregar o que não é seu.
Por fim, e talvez seja essa a parte mais dura, perdoe a si mesmo. Perdoe aquela versão sua que errou, que fez escolhas equivocadas, que falhou, que não soube se proteger, que acreditou em quem não deveria, que não viu o que hoje parece óbvio. Não existe ser humano que não tenha arrependimentos. O erro é parte da nossa jornada, e insistir em se culpar pelo que passou é uma maneira cruel de impedir a si mesmo de crescer. O auto perdão não é sobre justificar o que foi feito, mas sobre reconhecer que, naquele momento, você fez o que conseguiu com o que sabia. Hoje, talvez, você agisse diferente, mas não pode voltar no tempo para corrigir o que já aconteceu. Pode, sim, escolher não carregar esse peso pelo resto da vida. O perdão a si mesmo é um ato de coragem, e não de fraqueza. É a libertação necessária para que você siga em frente sem as correntes da culpa e da vergonha.
Perdoar é, em última instância, escolher a liberdade. E ninguém consegue seguir em frente carregando o peso de algo que já passou. A vida segue, sempre segue, mas nem sempre levamos conosco apenas o que é necessário. Muitas vezes, nos aferramos ao que já terminou, e é por isso que nos sentimos exaustos, perdidos, amargurados. O convite, então, é esse: olhe para essas quatro figuras — seus pais, os que você amou, os outros, e você mesmo — e pergunte-se: o que ainda estou carregando que não preciso mais? E então, com a mesma suavidade com que a água corre entre os dedos, deixe ir. A paz não é um lugar que você encontra, mas uma escolha que você faz. E ela começa, sempre, com o perdão.