Andre Luiz Santiago Eleuterio: Para quem é dono do castelo, o príncipe encantado é só uma visita

Foto de André Luiz Santiago Eleutério, autor do Pensamento Diário com reflexões emocionais sobre a vida
André Luiz Santiago Eleutério

Quando você descobre que o seu castelo foi erguido com as suas próprias mãos, percebe uma liberdade nova. Cada parede carrega o suor de quem ousou sonhar e trabalhar. Cada torre reflete as escolhas que você fez, com coragem e com falhas. Você entendeu que não precisa de aplausos nem de promessas grandiosas para se manter firme. Aprendeu, passo a passo, a cuidar do que é seu de dentro para fora, sem depender de sons encantados que venham de fora das muralhas.

Houve dias em que você esperou tanto por alguém que chegasse para mudar tudo. Sonhou com olhares que curassem feridas antigas. Ficou imaginando um sorriso que apagasse medos e inseguranças. Quando esse alguém surgia, a porta se abria com entusiasmo, como se guardasse tudo o que faltava. Mas, cedo ou tarde, você viu que o brilho dos olhos podia se apagar. Que o encantamento durava o tempo de um sopro. E então surgia a dor de quem percebeu que entregou muito de si a quem não ficaria.

Foi numa dessas partidas que você entendeu a diferença entre quem visita e quem mora. O castelo, com seus salões e jardins, é o cenário de toda a sua história. Ali dentro há memórias de superação, noites em claro e risos contidos. E quem chega só passa por ali, deixa um rastro de presença e segue seu caminho. Aprende-se, então, que visitantes podem ser bem‑vindos, mas não são donos. Eles admiram o que você construiu, mas não têm o direito de reclamar um espaço maior do que aquele que foi oferecido.

Com o tempo, você percebeu o valor de cada pedra assentada em silêncio. Cada laje representa uma conquista, cada porta, uma escolha. As tempestades do passado tentaram derrubar tudo, mas você encontrou forças para remontar as pedras e preencher as frestas. Descobriu que reconstruir dói, mas também ensina. Faz crescer a confiança de que você é capaz de erguer novos muros mesmo depois de ver o vento derrubar o que parecia indestrutível. Aprendeu a olhar para os escombros com respeito, sabendo que cada fragmento faz parte da sua história.

Quando um visitante bate à porta hoje, você não corre mais para abrir sem pensar. Recebe com educação e calor, mas sem ansiedade. Você sabe que a companhia pode ser agradável, mas não essencial. Pode chegar para um café, para uma conversa ou para dividir uma música. Pode até deixar lembranças bonitas e marcas de cuidado. Mas, quando se vai, o silêncio volta a ser companheiro fiel — e você não teme mais a sua presença. Porque a solidão bem vivida não é ausência, é espaço para você sentir o próprio ritmo do coração.

A beleza de ser dono do castelo está em cultivar seu jardim sem pressa. Você planta flores para o seu prazer, e não para impressionar ninguém. Pode colher pétalas roxas, amarelas, vermelhas, conforme o seu estado de espírito. Cada cor nasce de uma escolha íntima. E as sementes que você rega com amor próprio brotam forte, mesmo em solo seco. É assim que se constrói um reino interno de paz, onde os ventos externos não têm força para levar raízes que já estão bem fincadas.

Pense em tudo o que você já superou. As noites em claro, a dor de ver portas fechadas, a frustração de promessas quebradas. Agora olhe para o presente: você segue aí, de pé, com a chave ainda na mão. Ninguém pode tirá-la de você, porque ela é fruto das suas vitórias e do seu aprendizado. Quando a próxima visita chegar, você saberá acolher sem medo, apreciar sem se perder e despedir sem culpa. E entenderá, mais uma vez, que o príncipe encantado não foi feito para morar, mas para lembrar que o seu castelo é forte o bastante.

Ser dono do próprio castelo significa governar seu coração e sua mente. Significa ter clareza de que o valor não vem de fora, mas do que você soube construir em cada conquista. Você não negará espaço a quem quer entrar, mas também não abrirá mão do seu trono. Porque, acima de tudo, você aprendeu que o maior encanto acontece quando reconhece a própria força. E então qualquer príncipe que chegue será bem‑vindo… mas apenas como visitante.

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