
Tem pessoas que não sabem voltar atrás. Elas falam com tanta certeza, com tanta convicção, que até fazem parecer que estão certas o tempo todo. Nunca recuam. Nunca dizem “não sei”. Nunca consideram que o outro pode estar vendo algo que elas não viram. Criam uma verdade que gira só ao redor delas, como se o mundo todo tivesse que se adaptar ao que elas acreditam.
O mais difícil é quando essas pessoas estão perto. Quando você precisa trabalhar com elas. Quando você depende delas para algo. Quando você é obrigado a ouvir, aceitar e seguir, mesmo vendo que o caminho está errado. Mesmo sabendo que aquilo vai dar problema lá na frente. E pior: você tenta falar, tenta sugerir, mas é cortado no meio. Porque para esse tipo de pessoa, escutar não é uma opção. O outro é sempre menor. A opinião do outro sempre atrapalha. Só ela sabe. Só ela faz. Só ela resolve.
Mas a verdade é que muitas vezes, não resolve. O trabalho dela, se a gente for olhar com cuidado, não tem nada de extraordinário. Às vezes até atrasa, complica, não entrega o que prometeu. Mas isso nunca vira assunto. Porque ela sempre tem uma justificativa. Está sobrecarregada, está com mil coisas nas costas, está fazendo tudo sozinha — e faz questão de repetir isso. Como se fosse uma heroína, uma mártir, alguém insubstituível. E você que convive com isso, vai acumulando o desgaste. Vai engolindo seco. Vai guardando a vontade de dizer: “mas você também erra. Você não é tudo isso.”
Só que você não pode dizer. Porque, muitas vezes, você precisa daquele espaço. Daquele emprego. Daquela convivência. E aí a dúvida começa a te corroer por dentro: como continuar convivendo sem se calar para sempre? Como não deixar que esse tipo de pessoa apague a sua voz, o seu valor, a sua lucidez?
O primeiro passo é entender que sim, há pessoas que são assim. E que talvez elas nunca mudem. Porque o problema não é só orgulho. É também uma dificuldade real de olhar pra si, de reconhecer falhas, de admitir que não são melhores do que ninguém. Enquanto isso, tem pessoas que erram também, mas quando percebem, recuam com respeito. Às vezes não dizem em voz alta: “você estava certo”. Mas mudam a postura. Dão espaço. Entendem que existe outro ponto de vista. E isso faz toda diferença.
Essa diferença de comportamento diz muito sobre o tipo de ser humano que cada um escolhe ser. Uns precisam vencer sempre. Outros querem crescer junto. Uns vivem competindo. Outros sabem construir. E nessa diferença, moram os conflitos que mais desgastam a gente no dia a dia.
Mas o ponto é: o que fazer quando não dá pra se afastar dessa pessoa? Quando você não pode sair, não pode impor, não pode mudar a lógica dela?
É aqui que entra um tipo de resistência que ninguém ensina: a resistência emocional. A capacidade de observar tudo isso acontecendo e não se deixar virar igual. Porque, às vezes, a gente vai absorvendo aquele jeito tóxico de lidar com o mundo. Vai ficando mais duro. Mais reativo. Mais intolerante. E, sem perceber, começa a agir do mesmo modo. Por defesa. Por frustração. Por raiva acumulada.
Só que se você se torna igual, você perde aquilo que te diferencia. Você perde a sensibilidade de escutar. A humildade de rever. A leveza de reconhecer que não precisa vencer sempre. Que errar faz parte. Que aprender é mais bonito do que parecer perfeito.
Não se trata de fingir que está tudo bem. Nem de aceitar calado o que machuca. Trata-se de criar um espaço interno onde você consiga se preservar. Saber que você está enxergando a situação com clareza. Saber que, mesmo não podendo mudar o que está fora, você ainda tem domínio sobre o que sente por dentro.
Você não pode impedir que alguém seja arrogante. Mas pode impedir que essa arrogância vire sua raiva. Pode impedir que essa prepotência destrua sua calma. Pode se fortalecer silenciosamente. Guardando suas ideias. Registrando o que vê. E, quando for seguro, mostrar sua visão com firmeza — sem confronto, mas com consistência.
Isso exige esforço. Exige treino. Porque a vontade de explodir é real. O nó na garganta, a sensação de injustiça, o sentimento de impotência… tudo isso vai aparecer. Mas você precisa lembrar que nem sempre o barulho ganha. Às vezes, quem cala por estratégia, ganha tempo, ganha fôlego, e ganha força.
E mais importante: ganha consciência. De que não precisa competir. De que não precisa provar nada pra ninguém. De que o reconhecimento que importa não vem de quem grita mais alto, mas de quem faz com verdade. E faz junto. Porque é no trabalho coletivo, na troca, na humildade de aprender, que moram os melhores resultados.
Se hoje você está vivendo isso, segurando palavras que queria soltar, saiba que você não está sozinho. Muita gente passa por isso. E muitas dessas pessoas estão aprendendo, como você, a resistir com equilíbrio. A não deixar que a vaidade alheia roube a própria paz.
Talvez a pessoa que nunca recua continue sendo assim. Talvez ela nunca perceba. Talvez ela nunca mude. Mas você pode escolher não viver nesse mesmo ciclo. Pode recuar quando for preciso. Pode ceder sem se anular. Pode discordar sem brigar. Pode fazer diferente.
Porque no fim, quem insiste em parecer certo o tempo todo, mostra só o próprio medo de errar. Mas quem sabe quando parar, quando escutar, quando respeitar — esse sim, mostra sabedoria.
E é essa sabedoria que vale mais do que qualquer razão.